AS MÚLTIPLAS REPRESENTAÇÕES DA CRIMINALIDADE E DA VIOLÊNCIA

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O atual contexto brasileiro aponta para um momento em que a realidade desafia e provoca pânico nos cidadãos brasileiros, quando se deparam com o fenômeno da violência. Os meios de comunicação de massa, em suas diferentes formas de manifestação, invadem cotidianamente nossos sentidos com espetáculos de horror que ora sinalizam a barbárie, ora nos colocam nas vésperas ou antevésperas de uma guerra civil, produzindo um deslocamento nos conteúdos do imaginário social, pelo qual o mito do “homem cordial” vai cedendo espaço à “lei do mais forte” e aos imperativos do “salve-se quem puder e como puder”.

É um mundo moderno frágil, dotado de incertezas onde são precários os limites e fronteiras entre o conhecido e o desconhecido, entre a ordem e a desordem, entre o racional e o irracional. O que se percebe é que a violência não é episódica nem acidental, pois está inscrita na estrutura da sociedade. Em segundo lugar, a noção de violência estrutural costuma estar associada à negação de direitos básicos dos cidadãos, o que exerceria um efeito indireto sobre a violência física. Na verdade, os cidadãos estão sendo privados de direitos, e consequentemente expostos a um risco maior de sofrer ou cometer agressões.

A violência grassa as praças, as escolas, os campos de futebol, as penitenciárias, as boites, e a vida familiar de cada cidadão. O mundo contemporâneo é marcado pela insegurança, a desconfiança e o medo, sentimentos provocados pelos mais diversos tipos de violência. A criminalidade se tornou um fenômeno social, um fato próprio da existência humana, portanto fato social que nos causa mal estar. Violência e criminalidade sempre fizeram parte da convivência humana. O papel de cada instituição é evitar que seus índices cheguem a uma situação insustentável, como a que estamos vivenciando, a ponto de impedir a garantia do Estado Democrático de Direito. Todos os Estados brasileiros estão com índices alarmantes de violência. Não existe um único lugar seguro para se esconder, nem nos rincões mais distantes das zonas rurais, pode-se desfrutar de paz e segurança.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, dos Direitos da Criança, a Constituição Federal, e o Estatuto da Criança e do Adolescente estão sendo violados, pelas pessoas ou instituições que deveriam ter a missão de zelar pela vida e pela integridade de cada cidadão, assim como por suas famílias.

As múltiplas representações da criminalidade e da violência são emblemáticas porque estão inseridas no cotidiano de cada indivíduo, convertendo-se em uma das principais preocupações internacionais. A violência é um dos mais graves problemas que aflige as sociedades modernas. Entendendo violência no sentido amplo, pode-se interpretar crime organizado, homicídios, terrorismo, brutalidade policial, violência doméstica e no trabalho, como subdivisões do tema geral violência.

O desafio atual é buscar urgentemente diminuir os níveis de violência no Brasil, com um programa que resgate a paz, a segurança e a confiança do cidadão. Numa parceria com os governos estaduais e municipais, com os três poderes, a sociedade civil, e através da construção de uma rede de parcerias internacionais, mobilizar a sociedade, aumentando a conscientização e a educação para uma cultura de paz. O objetivo é encontrar os meios adequados para atitudes civilizadas, valores e comportamentos, que promovam o bem-estar, a justiça social, e a solução não violenta de conflitos.

A inclusão social deve ser feita através da Educação, que em sua dimensão social se aplica às situações de emergência e de invisibilidade, em espaços onde se manifestam sintomas de pobreza, drogadição, exclusão, culturas de violência. As manifestações de violência são sintomas recorrentes de um mal-estar social que subsiste na sociedade. Sociedades violentas colhem os frutos de uma cultura de violência subjacente às relações sociais que nela intercorrem.

Se existem problemas nas penitenciárias, no trânsito, nas zonas urbanas onde há uma verdadeira explosão demográfica ocasionada pela migração interna, pela busca por oportunidades de trabalho, acesso à saúde, à educação e moradia, percebe-se, claramente, a falência do Estado.

A população não aguenta mais as desculpas dos governantes, e a negação de direitos fundamentais por uma estrutura governamental inepta, que não age em prol do cidadão, mas em beneficio próprio.  Condicionantes culturais e estruturais como a desigualdade e a exclusão social, reforçam os comportamentos antissociais, e trazem no seu bojo o desespero ante um futuro incerto, que espelha uma situação de abandono, especialmente para jovens envolvidos com a dependência de drogas, para grupos em situação de risco de envolvimento em culturas de gangues e de violência.

Os problemas fundamentais dos mais empobrecidos membros da sociedade no Brasil revelam o desespero, representado pela “miserabilidade” de um coletivo de pessoas, que testemunha o abismo entre polícia e juventude. Uma população traída pelas promessas de uma vida melhor, pela ausência de perspectivas de sobrevivência e oportunidades de inserção profissional no sistema capitalista.

Fonte:

Leila Bijos

Doutora em Sociologia do Desenvolvimento, Universidade de Brasília, pós-Doutora em Sociologia e Criminologia, Saint Mary’s University, Canadá. Professora Adjunta do Departamento de Sociologia e Criminologia da Saint Mary’s University, da Tsukuba University, Japão, e da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). Professora do Mestrado em Direito da Universidade Católica de Brasília. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Política Internacional.

E-mail: leilabijos@gmail.com

 

 

 

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